Entre o 100% e o 0%
Existe uma coisa que me deixa preocupado, não é uma preocupação grave é mais um estado de curiosidade e apreensão com a expressão: "Deixa cá ver onde isto vai dar".
Isto acontece quando alguém que iniciou uma prática de Chi Kung ou Respiração afirmar que está a conseguir praticar desde que começou todos os dias cerca de uma hora ou mais por dia.
Não está errado, e pessoalmente eu quando comecei a estudar Chi Kung praticava cerca de 6 horas de Chi Kung todos os dias.
Mas há o reverso da moeda, por outras palavras - A vida acontece.
Quando a impermanência mostra que afinal não é apenas uma "cena trend budista" mas que de facto está presente de forma viva e a cores nas nossas vidas é aqui que a minha preocupação inicial se confirma ou não.
E isto tem a ver com a euforia inicial de um hábito, aquele momento em que achamos que vai ser assim toda a vida e que é incrível, e contamos a toda a gente os benefícios do Chi Kung, da Respiração, da nova dieta e como é incrível o que estão a viver.
Até que existe de repente algo que muda tudo.
O despertador não tocou, não nos conseguimos levantar da cama cedo porque ontem por acaso nos deitamos mais tarde, adoecemos, alguém adoeceu, as crianças entraram de férias, estamos a viajar, recebemos visitas.
Existe uma série de razões.
Mas isso pode mudar tudo, porque no meio da impermanência o apego ao esquema ideal de prática, ao tempo ideal de respiração à dieta ideal transforma-se em aversão ao mesmo, o que significa:
Se não tenho as condições ideais hoje não vou praticar.
Porque em vez de uma hora, como era hábito, hoje só existem 15 minutos disponíveis.
E tal como o amor perfeito menos que isso não queremos, e se as condições ideais não estão reunidas a prática não acontece.
E passam 2, 3 dias, 1 semana e o tempo que queríamos não acontece.
Aqui existem dois caminhos.
Ou procurar outro estímulo que nos motive de novo - recomeçar do zero, encontrar outra prática, outro curso.
Ou criar adaptação - mais trabalhoso, mas que cria resiliência à impermanência e a capacidade de desenvolver soluções criativas onde quer que estejamos.
Como disse o Padre Borga num baptizado que tive oportunidade de assistir: "As pessoas mudam de relacionamentos, porque o que estão a viver é difícil, mas recomeçar, a longo prazo, dá muito mais trabalho do que a curto prazo investir energia no que já se conquistou". Parece um ovo de Colombo e de facto é.
Assim, quando há menos tempo para praticar, os acontecimentos que surgem são um convite para que o que estamos a criar se instale de verdade nas nossas vidas. Senão, entramos no registo de hoje 100%, amanhã 0%.
Já pensou aplicar isto a outras áreas da sua vida?
Hoje lava os dentes 3 vezes por dia, amanhã não. Hoje toma banho, depois só daqui a 4 dias. Hoje é afável para com quem vive, amanhã não quer saber.
Quando pensamos nos ciclos da natureza existem as várias fases, e às vezes na nossa vida durante uma semana temos as quatro estações, estações com mais recursos e com menos recursos.
A impermanência não é uma maldição, é algo que pode fortalecer a nossa prática de autocuidado.
Neste período que está a viver, com a chegada do Inverno - uma estação de menos energia - é também o momento para reformular aspectos da nossa vida.
A prática, o nosso autocuidado, é um deles.
Por isso fica o desafio: independentemente do tempo que tem, nem que sejam cinco minutos, pratique algo que sabe que profundamente lhe traz nutrição.
Seja aquilo que na Academia recomendamos - Chi Kung, respiração coerente - ou outras práticas com que sente identificação.
Se lhe faltarem ideias, ficam aqui práticas de 5 e de 10 minutos que pode levar consigo para onde quer que vá.
Até para a semana.
Lourenço de Azevedo
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