Uma rotina que não aprisiona
Reparo com frequência nesta frase, dita de formas diferentes: "quero criar uma rotina, mas sem me sentir presa nela." Não sei ao certo porque é que esta expressão aparece tanto — mas reparo nela, semana após semana, em pessoas que atravessam momentos de vida muito diferentes entre si.
O paradoxo investimento-retorno
Há aqui um paradoxo simples: sem investir tempo numa prática, não há retorno nenhum. Isso é quase óbvio. Mas para quem já viveu a disciplina como imposição — um horário que serviu outra pessoa, uma exigência de quem manda — investir tempo numa prática pode soar exactamente a isso. Mais uma coisa a cumprir.
E instala-se o paradoxo: não investir garante que nada muda. Mas investir, para quem teme a prisão da rotina, pode parecer o próprio problema que se tenta evitar.
Ou seja, não é a rotina em si. É a experiência anterior que não correu como esperado.
Porque a rotina parece uma gaiola
Eu não lhe chamo preguiça, nem falta de força de vontade. Parece-me mais um mecanismo de protecção. Quando a estrutura já significou, nalgum momento, perder-se dentro dela — um trabalho, uma relação, uma obrigação — o corpo aprende a desconfiar de tudo o que se pareça com rotina, com compromisso. E acaba por ser mais seguro, para a nossa integridade — baseada em experiências anteriores —, sabotar a prática antes que ela volte a ser também ela uma prisão.
Nem a menos, nem a mais
Diz-se que Confúcio afirmou que não importa a velocidade a que se viaja — o mais importante é mesmo não parar.
Gosto desta frase, mas há um risco em usá-la sem cuidado: pode tornar-se uma razão para criar transformação fazendo-a muito devagar, tornando-se uma forma elegante de procrastinar indefinidamente.
Porque há aqui dois caminhos onde podemos derrapar, não um só. Um é não desenhar, não planear nada — viver sem qualquer estrutura, à espera de motivação que nunca chega, e chamar-lhe liberdade quando é, na verdade, estagnação. O outro é desenhar, planear a mais — construir uma rotina tão rígida e ambiciosa que se torna insustentável, e acaba por criar um encarceramento.
O que sustenta uma prática ao longo dos anos não é nenhum dos extremos. É esse ponto no meio — desafiador o suficiente para exigir algo de nós, leve o suficiente para não nos esmagar.
Não tenho aqui uma fórmula fixa para o encontrar. Cada pessoa tem de o ir caminhando, sessão após sessão.
As fórmulas podem servir para os primeiros passos, mas a partir de certo momento o território de exploração é individual.
E talvez não possa ser de outra forma. O caminho faz-se caminhando — não há como prever de antemão como vai ser, só se descobre passando por ele.
O facto de eu não ter uma fórmula fixa para dar não é uma falha a resolver. É o próprio percurso, e a coragem de o abraçar, que permite encontrá-la.
O paradoxo não desaparece
Continua a ser verdade que sem investir tempo não há retorno. Mas o investimento pode ser pequeno, ajustável, seu. Não precisa de ser a rotina rígida que uma vez resultou numa prisão da qual teve dificuldade em sair, nem tão inexistente que nunca chega a acontecer.
É por isso que o Regenerar com o Outono não se resume a entregar uma estrutura pronta.
Ao longo de um trimestre, o que se procura não é só encontrar essa estrutura — é viver dentro dela, tempo suficiente para descobrir o que faz sentido para si e ir ajustando até se tornar sua.
Porque, com frequência, o que tentamos adoptar é uma estrutura — não a nossa estrutura.
Conhecer o Regenerar com o Outono.
Até para a semana.
Boas práticas
Lourenço de Azevedo
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