A Quietude Como Vantagem
No ano 2000 comecei a dar aulas de Chi Kung a um grupo de mais de 90 pessoas, divididos em três turmas, com mais de 65 anos num programa da Câmara Municipal de Oeiras.
Nas minhas aulas existe sempre um momento em que nos predispomos a ficar de pé em silêncio — a observar o corpo, receptivos às sensações que emergem.
Para alguns, esse momento tinha um sabor agridoce. As opiniões dividiam-se.
Habituados às actividades de ginástica, hidroginástica e dança.
Um dia, num grupo que conversava sobre este tema, fiz-lhes uma pergunta: "Alguma vez já tinham experimentado ficar em quietude de forma consciente e voluntária, atentos às sensações do corpo, sem complicar muito?"
E acrescentei: "Não por doença. Não numa fila de espera ou à espera de alguém. Não obrigados pelas circunstâncias. Mas por escolha própria."
Fez-se um silêncio naquele grupo.
A maioria tinha mais de 65 anos. E para a maior parte, essa experiência — simples, gratuita, sempre disponível — nunca tinha acontecido uma única vez na vida.
O corpo só existe quando dói
Há um padrão que se repete silenciosamente na vida de muitas pessoas: o corpo só entra no radar da consciência quando algo corre mal.
Uma dor nas costas. Uma tensão no pescoço. O cansaço que não passa. A doença que obriga a uma paragem forçada.
É nesse momento que se "descobre" o corpo — mas já em modo de alarme, já como fonte de limitação, já como problema a resolver.
O resultado é previsível: a relação com o próprio corpo fica condicionada pela dor. Quando não dói, ignora-se. Quando dói, cria desassossego e desconforto.
E a vida pode passar facilmente sem nunca se proporcionar habitar o corpo em paz.
O que a quietude deliberada pode oferecer
A quietude que praticamos nas aulas de Chi Kung não é uma pausa forçada. É uma predisposição activa para observar o que está sempre lá — mas que raramente visitamos.
Ficar de pé, em silêncio, a sentir o próprio corpo sem que exista dor nem desconforto, sem tentar atingir nada — é talvez uma das experiências mais raras na vida moderna. E ao mesmo tempo, uma das mais reveladoras e desafiantes.
Porque quando se observa o corpo sem o filtro da dor, algo muda na relação com ele. O corpo deixa de ser apenas aquilo que nos avisa quando algo corre mal — esse inimigo que nos limita. Passa a ser um lugar de presença. Uma fonte de informação. Um aliado.
Esta é a quietude como vantagem: não a ausência de ruído, mas a capacidade de estar atento ao corpo como algo que nos empodera — e não apenas como algo que nos limita.
Como começar
Não é preciso muito.
Encontre um momento do dia — de manhã, antes de começar, ou no intervalo entre duas tarefas. Fique de pé, com os pés à largura dos ombros. Deixe os braços ao longo do corpo. Realize uma suave flexão nos joelhos. Olhe para o horizonte.
Pode colocar uma música se desejar.
E simplesmente... observe.
Não o que dói. Não o que falta. Não o que devia ser diferente.
Observe o que está. A respiração que acontece. O peso dos pés na terra. O espaço entre os dedos. O ritmo do coração que não precisa de ser pedido.
Comece com cinco minutos. Não para atingir nada. Apenas para estar.
O que o grupo aprendeu naquele silêncio
Naquele dia em 2000, depois do silêncio que se fez no grupo, não precisei de acrescentar muito.
A resposta já estava ali. Nos 10 anos que se seguiram, a quietude foi revisitada cada vez com mais tempo e conforto — os praticantes abraçaram este momento de pausa como algo verdadeiramente importante para as suas vidas. E começou de forma orgânica a fazer parte da prática.
Mais de 60 anos de vida, e o corpo — esse companheiro sempre presente — tinha sido encontrado quase sempre através da dor, da doença, da obrigação.
A quietude deliberada é uma forma diferente de encontro. Não dramática, não espectacular. Mas genuinamente transformadora.
Porque quando aprendemos a habitar o corpo em paz, já não somos visitantes ocasionais de nós próprios.
Até para a semana.
Boas práticas
Lourenço de Azevedo
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