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A rebeldia do simples

Jan 12, 2026

Ou porque é que a simplicidade é o segredo que ninguém quer vender

Ao longo de 25 anos a ensinar Chi Kung, vi o mesmo padrão repetir-se centenas de vezes.

Alguém começa o programa com entusiasmo genuíno. Faz os exercícios durante uma semana, talvez duas. Sente melhorias. Depois algo interrompe - um imprevisto, uma semana mais exigente no trabalho, um familiar que precisa de atenção. E quando tenta retomar, já não sabe bem por onde começar. "Será que faço o exercício da semana 1 outra vez? Ou salto para onde estava? Talvez devesse experimentar aquele outro que encontrei entretanto..."

A prática pára.

Não por falta de vontade. Não por falta de resultados. Mas por excesso de opções.

Quando pergunto às pessoas que estão neste ciclo - começar com entusiasmo, parar, recomeçar, voltar a parar - a resposta é quase sempre a mesma: "Sei o que devia fazer. Só não consigo manter."

Durante anos achei que o problema era motivação. Ou disciplina. Ou força de vontade.

Até perceber que o verdadeiro problema era outro: sobrecarga cognitiva. Adicionada às outras sobrecargas da vida.

Em 2024, uma equipa de investigadores franceses e canadianos - publicou um estudo que finalmente colocou palavras naquilo que eu observava.

Investigaram o que chamaram "formas minimalistas de prática entre atletas recreativos" - 38 pessoas de yoga, mergulho livre, parkour, treino com kettlebells que partilhavam uma filosofia: menos é mais.

O que descobriram confirma exactamente o que tenho visto: havia pessoas que, depois de anos a experimentar programas complexos e variados, acabavam por adoptar uma abordagem minimalista - um repertório limitado de práticas simples que conheciam bem. Não porque fossem mais eficazes em termos absolutos, mas porque eliminavam a sobrecarga de decisões e permitiam focar no essencial.

Quando não tinham energia mental, quando simplesmente queriam praticar sem ter de decidir, voltavam sempre às práticas que conheciam profundamente. Aos movimentos básicos. Voltavam a casa.

Um dos praticantes descreveu isto como um regresso à essência: não viajar de um ponto para outro, mas focar-se no essencial e repeti-lo para refiná-lo constantemente. Simples, eficaz, exigente.

O custo invisível da complexidade

Imagine que tem 10€ de atenção disponível por dia. Não é uma quantia fixa - alguns dias tem mais, outros menos - mas é limitada. Muito limitada.

Agora imagine que antes de fazer os seus exercícios de Chi Kung tem de:

  • Decidir qual exercício fazer hoje
  • Lembrar-se da sequência correcta
  • Ajustar conforme "o que sente que precisa"
  • Avaliar se está a progredir
  • Questionar se não devia estar a fazer outra coisa

Quanto desses 10€ já gastou antes sequer de começar?

A indústria do wellness vende-nos constantemente a ideia de que precisamos de mais: mais opções, mais variações, mais personalização, mais estímulos. Como se o problema fosse não termos acesso suficiente a informação ou práticas.

Mas quando me refiro às pessoas que começam e param repetidamente, o padrão é sempre o mesmo. Não é falta de conhecimento. É excesso de decisões.

Repetir não é repetir

Aqui está o paradoxo que a cultura do wellness não compreende: práticas simples não são mecânicas. São meditativas.

Quando já não tem de pensar no que fazer a seguir - porque o repertório é limitado e conhecido - a atenção pode finalmente voltar-se para dentro. Observar. Escutar. Notar o que está diferente hoje.

Pode ser o mesmo exercício de respiração que faz há meses, mas hoje o ombro direito está mais tenso. A respiração está mais curta. A mente mais agitada. Ou talvez hoje haja uma fluidez que ontem não existia.

A simplicidade do repertório - sempre práticas conhecidas - cria espaço para a complexidade da percepção.

Não está a executar uma lista de tarefas. Está a diagnosticar e observar o seu estado actual. A encontrar o seu ponto de partida de hoje.

Este é o verdadeiro propósito de práticas minimalistas: não é fazer sempre igual. É criar condições suficientemente estáveis para notar o que muda constantemente - você.

As tensões musculares que carrega sem dar por elas.

Os padrões emocionais que surgem - aquela irritação quando algo não sai como quer, aquela pressa de terminar logo.

As narrativas internas que se repetem: "Isto é difícil demais", "Nunca vou conseguir", "Já devia estar melhor."

Quando o repertório é simples, pode finalmente prestar atenção ao que está debaixo da forma.


O que isto significa para si

Se é alguém que começa com entusiasmo e pára a meio - não uma vez, mas repetidamente - talvez o problema não seja a sua falta de disciplina.

Talvez seja a complexidade da prática que escolheu.

Pergunta-se: consegue descrever a sua prática numa frase simples?

"Todas as manhãs faço estes exercícios de respiração."

Se precisa de mais do que uma frase, se tem de consultar um plano, se tem de decidir "o que fazer hoje"... já está a gastar os seus 10€ de atenção antes de começar.

A simplicidade não é uma limitação. É a condição necessária para a escuta.

"Foi um período bastante exigente a vários níveis. E foi muito interessante sentir uma espécie de segurança interna com a prática. Eu fiz isto todos os dias e por mais difícil que fosse, o facto de estar aqui era muito importante para o resto do dia, para me dar força."

— João, participante do programa Inverno 2025


Nota: Se esta abordagem ressoa consigo e quer experimentar práticas minimalistas de respiração consciente, preparei um programa de acesso livre como ponto de partida.

Para quem deseja ir mais fundo, a Academia Regenerar foi desenhada com esta mesma filosofia - programas que privilegiam a simplicidade sobre a quantidade, a escuta sobre a execução. O programa Ciclos Naturais acompanha as transições sazonais com práticas de Chi Kung e respiração consciente.

O valor da Academia será actualizado no dia 31 de Janeiro, passando de 390€/ano para 570€/ano. Até lá, é possível fixar de forma vitalícia o valor de 390€ por ano.

Pode conhecer aqui a Academia.

Se fizer sentido para si, pode utilizar este cupão de desconto para iniciar a subscrição.

Se tiver dúvidas sobre qualquer um dos programas, responda a este email.

Até para a semana,

Lourenço de Azevedo

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